RELATOS DE VIAGEM: UMA CONFLUÊNCIA ENTRE NARRAR, DESCREVER E EXPERIMENTAR

 

Lúcia Ricotta B.V. Pedras - PUC-RJ

 

 

Vou analisar a narrativa de viagem, em particular, a narrativa da viagem científica do oitocentos, a partir de seus múltiplos e simultâneos relacionamentos que se estabelecem em torno da atmosfera intelectual do século XIX. Trata-se de vincular a experiência da viagem oitocentista à exigência histórica, característica do início do século XIX, de individuação dos saberes e à demanda de uma história de fato científica e de uma literatura efetivamente comprometida com o destaque da imaginação humana.

 Pode-se apreciar, nessa passagem do século XVIII ao XIX europeu, a formação das mais variadas configurações do relato moderno, para cujo entendimento a noção da disciplina histórica e da literatura parecem realmente desempenhar papel de especial relevância.

 No horizonte da razão moderna, novos parâmetros de conhecer e representar são exigidos sob o realce da subjetividade individual e da experiência humana. As coordenadas espaço e tempo tornam-se, como nos ensina Kant, “as formas a priori da sensibilidade”[1], sob as quais é possível ao sujeito da modernidade tanto a experiência do conhecimento quanto no cultivo de cenas e objetos estéticos. Essas coordenadas vão estarpresentes formalmente em todas as experiências do sensível e vão dar acesso à razão humana a uma multiplicidade de representações e intuições, sintetizadas ou não pelo máximo guia da certeza, o entendimento.

Que então haveria fora do campo das certezas com que se autentificavam as experiências de conhecimento produzidas pelos homens? O conhecimento das ciências humanas concorria, inequivocamente, para alargar os limites da verdade e da certeza, impondo condições que pudessem articular o caráter produtivo da subjetividade individual à liberdade humana. É sob esse terreno que o saber histórico e a literatura ganham possibilidades de legitimar-se e individualizar-se.

Ao compreender a narrativa moderna de viagem é preciso não perder de vista que o naturalista, percorrendo território pouco ou nada conhecido dos europeus, narra sua experiência com fenômenos aos quais não está familiarizado e ao narrá-la pretende ostentar alguma verdade sobre o que narra ao mesmo tempo em que tenta explicar a realidade que aborda pela primeira vez. Deste modo, entre as muitas formas de figuração da narrativa e dos narradores de viagens no século XIX, pode-se dizer que o relato oitocentista é científico, porque esse narrador, pela sua evidente aproximação com o perfil do historiador, não institui ou cria ficções; ele liga eventos ou momentos isolados ao relacionar elementos dispersos no tempo e no espaço. Inevitavelmente, ele cria, imagina e fabula, mas constrói sempre uma história controlada que é permanentemente retificada por outros viajantes ou até mesmo por alguns historiadores.

Não é à toa, como já ressaltou Alexander von Humboldt sobre a narrativa de viagem que “tudo quando tende a reproduzir a verdade da natureza, dá nova vida à linguagem, quer se trate de descrever a impressão sensível produzida em nós pelo mundo exterior, quer os nossos sentimentos íntimos e as profundidades em que se agita o nosso pensamento (...) O meio mais apropriado de realizar este fim, continua Humboldt, consiste em que o observador, aquele que sentiu pessoalmente a impressão, a conte singelamente, e circunscreva e particularize o lugar ou as circunstâncias a que se liga sua narração”[2]. Funcionando, então, a narrativa, como “descrição animada” e como “prova” da existência de outros seres, objetos e da própria realidade de novas terras.

Ora, busca-se com isso impor ao relato moderno certo caráter de verdade e de efeito de realidade, sem que dele escape a emoção e as formas de sensibilidade do viajante. O traçado do viajante, seguindo uma concepção humboldtiana do relato, assemelha-se em muito ao traçado do historiador do século XIX que está comprometido com determinado método e produção de saber histórico, ao circunscrever e particularizar o lugar e as circunstâncias dos fatos que seleciona. Entretanto, quando o viajante deixa a imaginação exorbitar, aí seu traçado adquire suficiente força poética para figurar como descrição literária em qualquer página de nossa literatura.

Diante de um gênero híbrido como a narrativa moderna de viagem, não bastava “provar” a existência da terra americana, era preciso, como já disse Humboldt, fornecer aos leitores uma “imagem viva da natureza tropical”, por meio ou de uma expressão visual ou de uma descrição científico e literária que levassem os leitores a ver quase com seus próprios olhos.

O atlas pitoresco da viagem de Humboldt e Bonpland que surge entre 1814 e 1819 junto ao Vues des Cordillières et des Peuples Indigènes de l’Amérique – instaura o que vai ser conhecido como o modelo humboldtiano de percepção estética e científica –, e, ainda, junto à publicação do Atlas da Viagem ao Brasil, de Spix e Martius vão além, constituindo parâmetros de uma visualidade embebida de saber científico, que servirá de experiência-guia aos viajantes oitocentistas em busca de terras desconhecidas.

Mas, aqui, duas questões permanecem abertas ao historiador de viagens que acredita no caráter estético e simultaneamente científico dos relatos narrativos: como o viajante do século XIX pode olhar a natureza, conhecê-la e ao mesmo tempo se deleitar esteticamente com ela? E em que medida a prudência científica do naturalista fornece as ferramentas básicas para um desenvolvimento romântico da imaginação poética.

A natureza, para Humboldt, constitui-se num valor supremo. Ela não se restringe à sua noção biológica e orgânica. Ela entra na ordem da criação de valores do homem romântico. É por acreditar no imenso poder moral da natureza e na sua capacidade de prodigalizar sensações estéticas que Humboldt promove a harmonia entre cultura científica e artística, tomando-as como vias paralelas de formação e renovação da existência no contato físico e espiritual com a natureza.

Vale dizer ainda que o grande propósito de Humboldt era o de unir, ao campo das ciências naturais, o cultivo da subjetividade individual através da arte, buscando, com isso, manter intensa a dinâmica de auto-alimentação e de auto-complementação entre dois campos de formação do homem burguês.

Para além do caráter de formação dessas viagens, as técnicas e o pensamento que alimentam subterraneamente o “desejo pelas terras distantes” correspondem a critérios de objetividade e visibilidade adequados aos métodos de conhecer do historiador e à capacidade de provocar efeitos estéticos do literato. Descrever com rigor científico e poético era um gesto que procurava assegurar a presença visual dos elementos no relato. Uma presença que não só participava da consistência material própria ao circuito do real, mas que apelava ao campo da sensação, sem perder o poder de evocação da experiência vivenciada pelo cientista. O viajante, portanto, narra e descreve exatamente no mesmo movimento em que explica e torna visível a sua experiência em terra distante.

Cumpre sublinhar, nesse contexto, então, a importância tanto de uma técnica quanto de uma arte de narrar e de descrever, que, por sua vez, surgem obedecendo de antemão aos parâmetros de legitimação e individuação da disciplina histórica, por um lado, e da estética, por outro.

Svetlana Alpers, uma historiadora da arte norte-americana, define a arte de descrever como uma arte do espaço e considera que a evidência descritiva (que vai estar presente nas imagens e textos dos viajantes) apoia-se exclusivamente naquilo que o olho é capaz de capturar[3]. A arte de descrever, responsável por tornar o mundo físico da natureza um mundo visível aos olhos do leitor, funciona, contudo, como meio privilegiado de percepção da inusitada qualidade espacial do novo continente. E o lugar descrito, que é presença visível no mundo, conserva uma intangibilidade. Quem descreve parece figurar inevitavelmente a própria presença no mesmo movimento em que delineia a paisagem. A emoção e a sensibilidade do naturalista, ambas são marcas que extravasam do enquadramento aparentemente fixo da ciência.

No encontro do europeu com a imensidão do espaço americano, uma pergunta, a meu ver, crucial é colocada na cabeça do viajante: como transmitir o que se vê e o que se sente e ainda como transmitir a forma como tudo é visto e sentido na América. Eis o desafio do relato de viagem, desse gênero híbrido entre a história e a literatura.

O naturalista em visita à América no século XIX mescla em seus relatos anotações de diário, descrições de fenômenos científicos e sensações paisagísticas experimentadas in loco com estímulos da topografia, da geografia, da vegetação, da vida em sociedade, passando a abordar a terra americana sob uma dupla mirada: ela como um fato a ser arrolado pela ciência histórica e, ela como realidade que têm uma unidade visível. Unidade visível esta que precisava ser descrita àqueles que, privados da viagem, só tinham a leitura como compensação.

Parece-me importante definir esse forte apelo do visual no relato moderno de Humboldt seguindo um pouco da costura que o próprio autor parece fazer no corpus americanista de sua obra. Esse corpus, composto de livros das mais diversas áreas de saber científico e de imagens “que visam a tocar a imaginação humana”, é o resultado, não tão imediato, porque demorou vinte cinco anos para sua edição completa, da viagem de Humboldt e Aimé Bonpland à América. Sob o título geral de “Viagem às terras equinociais do Novo Continente”, esses relatos, como era comum na época, sofreram modificações por parte do autor principal e por parte de outros cientistas, desenhadores, gravadores que também organizaram, calcularam e recompuseram as coleções, os dados científicos e os inúmeros esboços pictóricos e mapas feitos em face do novo mundo.

No entanto, a despeito da diversidade de especialistas envolvidos na produção desses relatos e a despeito da heterogeneidade de matérias ali tratadas, o corpus americanista, tomado em seu conjunto, revela o prévio esforço de totalização que o inspira. Totalização que inspira ainda certo movimento de confluência entre dois modos distintos de representação, o narrar e o descrever, presentes na forma de divulgação do saber científico e da arte em geral no século XIX.

Não parece nada ociosa e nem fácil a questão sobre a importância da representação visual e estética nessa construção européia do Novo Mundo. Não há tempo aqui para se fazer uma genealogia da representação, o que iria nos ajudar a avaliar o peso específico das imagens nesse entrecruzamento de arte e ciência proposto pelo relato moderno. Considere-se, porém, que, o papel da imagens nas narrativas das viagens do século XIX há de respeitar um certo limite: seu exercício é livre, sob a condição de não anular o interesse científico da imagem européia do Novo Mundo. Como que a sugerir a relação de complementaridade entre o esforço de construção da realidade americana, pela via da narrativa temporalizada do viajante e a apresentação da imagem que enforma esteticamente a realidade construída pelo viajante-historiador.

Ao apresentar nos seus relatos, monumentos dos povos indígenas da América e, ao mesmo tempo, vistas pitorescas ou caracterizadoras de diversas regiões americanas, Humboldt afirma o elo inextricável que liga as obras estéticas desses povos à configuração topográfica e espacial da natureza:

 

Para conhecer a origem das artes é preciso estudar a natureza do sítio de onde elas nascem. Os únicos povos americanos em que nós achamos monumentos remarcáveis, são os povos montanheses. Isolados numa região de nuvens, sobre os mais elevados platôs do globo, cercados de vulcões (...), eles só parecem admirar, na solidão dos desertos, aquilo que toca imaginação pela grandeza das massas. As obras produzidas por eles trazem a marca da natureza selvagem das Cordilheiras[4].

 

O espaço americano é pródigo em excitar a imaginação humana. Uma vez que se penetra nos caminhos montanhosos dos Andes, o viajante europeu deve pôr todo cuidado nas cenas majestosas e variadas que houver de nutrir e descrever para uso próprio e alheio. O melhor será não se ater somente a pintar aquelas que produzem um efeito pitoresco, mas a representar, de modo exato, os contornos das montanhas, dos vales e as cascatas imponente formadas pelas torrentes de água.

Os critérios de gosto pela apreensão do pitoresco advém de algumas combinações notáveis da natureza que inspiram a poética do viajante. Os “monumentos remarcáveis” dos povos montanheses são dignos da representação artística na medida em que evidenciam “a natureza selvagem das cordilheiras”. A visão pitoresca na abordagem da paisagem americana singulariza e individualiza cada elemento segundo a natureza do seu local, e segundo o primado dos valores pictóricos sobre a natureza observada.

Aqui está-se operando com determinada noção de pitoresco. Como minha preocupação é situar as narrativas da viagem moderna de Humboldt nessa passagem do século XVIII ao XIX, me parece que a aproximação entre natureza e arte, feita por Humboldt, compreende já as categorias do belo e do sublime. E o cenário americano concorre exatamente com uma oferta de motivos para a realização das possibilidades estéticas do belo. Toda a descrição das particularidades étnicas, sociais e políticas de outros povos, feita por Humboldt, não pode afrontar os parâmetros de beleza harmônica dos europeus. Porque toda a visão afirmativa do pitoresco vem do controle e supremacia do homem sobre a natureza, e, em Humboldt, mesmo quando a imensidão da paisagem domina a cena é em favor do sentimento do belo que vigora paralela e complementarmente à poética do pitoresco.

Na América, onde se contemplam obras da natureza que parecem feitas pela mão do homem, a civilização ocupa um grau muito inferior aos povos europeus. Quaisquer que seja os monumentos naturais ou produções artísticas de antigas civilizações americanas, é necessário que “o clima, a configuração do solo, a fisionomia dos vegetais e o aspecto da natureza” sejam objetos que instiguem à reprodução de um caráter particular. Essa influência é tanto mais sensível, segundo Humboldt, quanto mais o homem estiver distanciado da civilização. O homem da América está ligado ao espaço, do mesmo modo o viajante fica ligado a uma poética do espaço quando sai em busca de terras desconhecidas.

Impunha-se assim uma dimensão outra aos atos narrar, descrever e experimentar dentro desse intercâmbio entre história e estética no século XIX e dentro desse movimento incessante de espacialização e temporalização das formas naturais americanas.



[1] Apud Luiz Costa LIMA: O sujeito e a Lei: Uma Descendência Kantiana. In Limites da Voz.Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 105 .

[2] (1807) Alexander von HUMBOLDT: Quadros da Natureza. Trad. Assis de Carvalho. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1952. p. 260, vol. 1.

[3] Svetlana ALEPRS: The Art of Describing. Dutch Art in the Seventeenth Century, The university of Chicago Press, 1983.

[4] (1810) Alexander von HUMBOLDT: Vues des Cordillères et des Peuples Indigènes de l’Amérique. Nanterre:Éditions Erasme, 1989.